Para uma sociedade de gestão coletiva, um dos maiores desafios operacionais está em saber quando uma obra de seu repertório é usada, onde, e com que frequência, porque disso depende que os direitos cheguem a quem corresponde.
Durante décadas, a resposta a essa pergunta dependeu quase exclusivamente de declarações. Os broadcasters reportavam o que haviam transmitido, as plataformas enviavam logs de reprodução, e as SGCs processavam essa informação manualmente ou com sistemas próprios. O problema desse modelo é que a qualidade do dado depende de quem o gera, e os erros ou lacunas nos relatórios se traduzem diretamente em direitos não distribuídos.
O monitoramento ativo como alternativa
A tecnologia de monitoramento ativo inverte essa lógica. Em vez de esperar que alguém reporte o uso de uma obra, o sistema escuta de forma contínua e detecta os usos por si mesmo. A ferramenta que torna isso possível se chama audio fingerprinting.
O conceito é mais intuitivo do que parece. Assim como uma impressão digital condensa os traços únicos de um dedo em um padrão identificável, o audio fingerprinting condensa as características acústicas de uma gravação, seu timbre, sua estrutura melódica, sua dinâmica, em uma assinatura digital compacta. Quando o sistema detecta áudio em qualquer canal que está monitorando, gera a assinatura desse fragmento e a compara contra uma base de dados de gravações conhecidas. Se há coincidência, registra o uso.
O que torna tecnicamente complexo esse processo é que o áudio no mundo real raramente chega limpo. Uma música transmitida pela televisão pode ter ruído de fundo, compressão de sinal, efeitos de pós-produção ou mudanças de andamento. O sistema tem que ser suficientemente robusto para reconhecer a obra apesar dessas variações, e suficientemente preciso para não confundir uma gravação com outra que soa similar.
A BMAT e a escala do problema
A BMAT é uma das empresas que resolveu esse problema em escala industrial. Fundada em Barcelona em 2006, hoje monitora 9.000 canais de rádio e televisão em tempo real em 140 países, processando 80 milhões de identificações diárias. Sua base de dados acumula mais de 72 milhões de gravações contra as quais compara o áudio que captura.
Para uma SGC, trabalhar com a BMAT significa receber relatórios de uso gerados por detecção direta em vez de por declaração de terceiros. Essa mudança tem consequências práticas concretas. A AGEDI, a sociedade espanhola de produtores de fonogramas, trabalha com a BMAT para monitorar publicidade em canais de televisão e atribui a essa colaboração um aumento mensurável na cobertura de música em publicidade que processa.
O produto central da BMAT para SGCs é o BackOffice, uma plataforma que integra gestão de membros, processamento de usos e distribuição em um único ambiente, seguindo os padrões da CISAC e integrando-se com sistemas como IPI, ISWC e WID. A lógica do produto é conectar o dado de monitoramento com o fluxo completo de operação da sociedade, para que a identificação de um uso termine derivando em uma distribuição correta sem intervenção manual em cada etapa.
O que o monitoramento não cobre
O monitoramento ativo resolve uma parte crítica da operação de uma SGC. Mas o outro grande desafio é igualmente importante e o dado de uso por si só não o responde: quem tem licença para usar esse conteúdo, sob quais condições, e como se gerencia a relação comercial com os licenciados.
Essa parte da operação requer uma camada diferente de tecnologia. Uma SGC precisa saber não apenas que uma obra foi transmitida, mas se o operador que a transmitiu tem um contrato vigente, que tipo de licença cobre esse uso, e qual é o estado de sua relação com a sociedade. Essa gestão, que envolve o ciclo completo desde o primeiro contato com um potencial licenciado até o acompanhamento do contrato e da relação ao longo do tempo, é onde a global.esur atua.